Durante muito tempo, procurei heróis.
Admirei pessoas que julgava serem mais fortes, mais inteligentes, mais corajosas ou mais capazes do que eu.
Via nelas qualidades que me faltavam e, sem perceber, imaginava que a força habitava sempre em algum lugar distante.
Com o passar dos anos, porém, compreendi algo que nunca havia procurado enxergar.
A criança que fui sobreviveu.
Sobreviveu aos medos que não sabia nomear.
Às dores que não compreendia.
Às expectativas que não podia atender.
Aos equívocos, às ausências, às inseguranças e às inúmeras distorções que encontrou pelo caminho.
Sobreviveu, inclusive, a mim mesmo.
Sobreviveu aos meus excessos.
À minha ignorância.
À minha arrogância.
Às escolhas impensadas e às vezes em que me afastei daquilo que havia de melhor em mim.
E, ainda assim, permaneceu.
Hoje, quando olho para trás, não vejo uma história perfeita.
Vejo uma travessia.
Vejo alguém que caiu muitas vezes.
Que feriu e foi ferido.
Que buscou respostas onde elas não estavam.
Que confundiu prazer com felicidade, controle com segurança e aparência com verdade.
Mas vejo também alguém que não desistiu.
Alguém que continuou caminhando.
Mesmo quando não sabia para onde ia.
Mesmo quando tudo parecia sem sentido.
Mesmo quando a dor parecia maior que a esperança.
Talvez seja por isso que hoje posso dizer, sem vaidade e sem vergonha:
Eu me tornei o herói daquela criança.
Não porque a livrei de todos os sofrimentos.
Não porque a protegi de todas as quedas.
Mas porque não a abandonei.
Porque continuei procurando.
Porque continuei aprendendo.
Porque tive a coragem de rever ideias, reconhecer erros e mudar de direção quando foi necessário.
Há uma paz silenciosa em perceber isso.
Não a paz de quem acredita ter chegado.
Mas a de quem finalmente encontrou um caminho.
Hoje já não preciso correr para provar quem sou.
Já não preciso vencer para existir.
Já não preciso lutar contra a realidade para sentir que pertenço à vida.
Hoje descanso caminhando.
Caminho rumo ao patamar da ordem e do equilíbrio.
Não como quem busca um destino distante, mas como quem aprende, a cada passo, a ocupar o próprio lugar diante da existência.
A criança que buscava proteção encontrou compreensão.
O jovem que buscava liberdade encontrou obediência.
O homem que buscava controle encontrou aceitação.
E o ser que buscava respostas encontrou direção.
Ainda há muito a aprender.
Ainda há muito a compreender.
Ainda há muito a viver.
Mas algo essencial mudou.
Hoje, ao olhar para trás, posso sorrir para aquele menino e dizer:
Você conseguiu.
Eu não o abandonei.
E, talvez pela primeira vez, posso reconhecer:
Eu sou o herói que ele esperava encontrar.
Continue sua travessia
Autor: Guilherme Coelho
Data da Publicação: 04/07/2026


